A Viagem do Elefante, José e Pilar, José Saramago, Pequenas Memórias

Tudo Pode Ser Contado de Outra Maneira

Todos os dias me convenço um pouco da contingência do universo. Ontem mesmo me falaram do documentário “José e Pilar” e eis que ligo a televisão hoje e ele está passando no Canal Brasil para a minha alegria.

Numa sutileza tocante e deliciosa, este filme relata um pouco da vida do escritor português José Saramago e da sua relação com a sua esposa Pilar del Rio. A película é dirigida por Miguel Gonçalves Mendes.

josé e pilarJosé de Sousa Saramago nasceu numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, situada na província do Ribatejo, a cerca de 100 quilômetros de Lisboa. Filho de José Sousa e Maria da Piedade, não herdou o nome idêntico ao do pai, pois o funcionário do registro público adicionou, por iniciativa própria, o nome Saramago ao seu documento, apelido pelo qual a família de seu pai era conhecida na região.

Saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas serviam de alimento aos pobres. Feliz foi este acaso, pois imaginem o nosso José sem o Saramago?

Em 1924, mudou-se com a família para Lisboa, onde iniciou os seus estudos e, posteriormente, por motivos financeiros, teve que abandonar o liceu para entrar em uma escola de ensino profissional, onde aprendeu o ofício de serralheiro mecânico.

Na grade escolar havia, surpreendentemente como Saramago mesmo coloca, a disciplina de literatura. Assim começou a sua saga, ou devo dizer missão neste mundo, pois foram os livros escolares de Literatura que lhe introduziram à fruição literária.

José só teve o seu primeiro livro próprio, comprado por ele com dinheiro emprestado de um amigo, aos 19 anos. Depois de formado, trabalhou como serralheiro mecânico em uma oficina e nessa época conta que começou a frequentar a biblioteca pública de Lisboa. Foi assim que se apurou, na solidão maravilhosa da curiosidade, o seu gosto pela leitura.

Do seu primeiro casamento com Ilda Reis, teve uma única filha chamada Violante. Na época de seu nascimento, publicou alguns livros (Terra do Pecado, Clarabóia), mas, depois disso, durante 19 anos se absteve do mundo literário, quando, segundo o autor, pouquíssimos devem ter sentido a sua falta (duvido).

pilarDepois disso, trabalhou em uma editora, como crítico literário e tradutor, até que decidiu se dedicar inteiramente à literatura, essa caso de amor sem retorno. Em 1986 conheceu a jornalista Pilar del Río, com quem se casou em 1988.

Em 1995 ganhou o Prêmio Camões e em 1998 o Prêmio Nobel da Literatura. Dentre as suas publicações neste período, destaco o famoso “Ensaio Sobre a Cegueira” e o “O Conto da Ilha Desconhecida”.

José se descreve como um senhor calado, melancólico e um pouco triste. Mas isso não sei. No filme é possível observar a sua simplicidade e capacidade única de interpretar o mundo, que encanta a todos facilmente, com seu jeito doce e inteligente de falar.

Diz não acreditar em Deus e não temer a morte. Depois que tudo acabar, o universo jamais saberá que Homero escreveu Ilíada, diz. Desabafa no filme que, com mais de oitenta anos, acredita que chegou a hora de pensar no futuro e fala:

“Sinto como uma perda irreparável o acabar de cada dia. Provavelmente seja isso a velhice.”elefante

Na época em que o documentário foi filmado, o autor escrevia o livro “A Viagem do Elefante”, o que me tocou particularmente, pois este foi o último dos seus livros que li. Recorri às palavras que havia escrito após esta leitura, feita em 2012, para me lembrar do que havia sentido e pensado ao final da aventura que foi acompanhar o elefante Salomão em uma grande viagem entre Portugal e a Áustria.

A história do livro é baseada em fato verdadeiro que aconteceu no século XVI, quando Dom João III, rei de Portugal e Algarves, oferece ao arquiduque austríaco Maximiliano II, então regente da Espanha, um elefante de presente. O livro relata a viagem deste animal exótico para época (daí o motivo do presente), entre Lisboa a Viena.

Não deixei de idolatrar, mais uma vez, o escritor na sua ironia e sutileza em demonstrar as incoerências e a hipocrisia humana. Sempre através de temas criativos e universais.

“Sempre chegamos ao sítio onde as coisas nos esperam”, uma das frases do livro.

O filme trata também do livro “Pequenas Memórias”, que é definido pelo autor como a memória que tem dpequenase si mesmo. No mesmo conta as suas lembranças de menino, da aldeia Azinhaga onde veio ao mundo, as oliveiras, os avós maternos Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha e todas as outras coisas, tão sutis ao olhar estranho e tão familiares àquele que lembra, que compõe com uma precisão incerta a infância, seus cheiros, suas alegrias e medos, que se traduzem em um sentimento de liberdade única.

Segue um trecho do livro que adoro, quando Saramago se recorda da paisagem da aldeia onde nasceu, que lhe remete a vastas lembranças:

“Não falta quem afirme seriamente, com o reforço abonatório de alguma citação clássica, que a paisagem é um estado de alma, o que, posto em palavras comuns, quererá dizer que a impressão causada pela contemplação de uma paisagem sempre estará dependente das variações temperamentais e do humor jovial ou atrabilioso que estiverem actuando dentro de nós no preciso momento em que a tivermos diante dos olhos”.

Por ironia ou não, Saramago nasceu em 1922, o mesmo ano que meu falecido avô materno. Por coincidência ou não, minha mãe sempre teve uma admiração e paixão por ambos. Lembro-me bem que, no dia 19 de Junho de 2010, deparei-me com a minha mãe sentada junto da mesa da cozinha com um jornal aberto, lendo uma longa reportagem sobre Saramago, homenagem a sua morte que acontecera no dia anterior.

Observei seus olhos marejados e o seu silencioso sofrimento por esta perda inexplicável. Durante aquele momento triste e de carinho e admiração pela beleza da vida, o telefone tocou. Era uma tia que apresentava os seus sentimentos à minha mãe pela perda de seu ídolo, alguém que nunca havia visto pessoalmente. Não é fácil explicar aquelas coisas que só existem dentro de nós.

Outro dia alguém me falou que o conhecimento e a literatura só deveriam existir para o bem, de nada adianta saber mais que os mestres, conhecer os clássicos e o mundo, se não for para melhorar o ser humano, compartilhar conhecimento e afeto. Concordei. Veja a imensidão da literatura, que é capaz de motivar uma simples ligação telefônica, grandiosa na sua capacidade de fortalecer laços e eternizar lembranças.

José Saramago será sempre eterno para mim, seja no seu documentário, seja em todos os seus livros espalhados pela extensa biblioteca da minha casa, seja na minha própria mãe, quem me deixa este legado, de certa forma aqui relatado.

Saramago queria viver tudo de novo, exatamente como a viveu. O que queria mais? Tempo e vida. Nós também queríamos mais tempo com você, e quem sabe teremos, afinal “tudo pode ser contado de outra maneira”.

fIM

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Literatura

Liberdade

Já faz tempo que tenho vontade e necessidade de escrever sobre Toni Morrison. A única mulher negra da história a ganhar o prêmio Nobel de literatura não poderia, em nenhum momento, passar despercebida neste blog. Esta escritora maravilhosa e revolucionária, fonte de inspiração para mim, nasceu na década de 30, em Ohio nos Estados Unidos da América.

tony_morrison_02Seu verdadeiro nome é Chloe Anthony Wofford, sendo Toni Morrison o pseudônimo adotado por ela como escritora. Toni é a abreviação de seu segundo nome, e Morrison o sobrenome que adotou depois de se casar. Seu pai, George Wofford,  era soldador além de outros bicos que fazia para sustentar sua família de quatro crianças. Sua mãe, chamada Ramah, era empregada doméstica.

A sua paixão pela literatura pode estar relacionada à influência de seus pais, que preencheram a sua vida com histórias do folclore afroamericano, suas músicas e mitos. Formou-se em Inglês na Howard University, com foco na literatura clássica. Posteriormente, continuou seus estudos na Cornell University e escreveu a sua dissertação sobre o trabalho de Virginia Wolf e William Faulkner. Foi professora de inglês em diversas universidades, como Texas Southern University, Howard University e, mais adiante em sua vida, na Universidade de Princeton. Nesta conheceu Harold Morrison, um arquiteto jamaicano que veio a ser o seu marido por um período e com quem teve dois filhos, Harold e Slade.

Sua obra explora a história dos negros africanos em diversos contextos e épocas, denunciando o inegável resquício da escravidão na cultura americana, com um foco muito especial na mulher. A sua maneira de https://wordpress.com/post/85441390/57/escrever, suave, por vezes triste, conta histórias que tiveram como base uma longa pesquisa feita pela autora sobre 300 anos da história dos negros na América. Li apenas dois de seus livros, um chamado “Jazz” e o outro chamado “Amada”. Recomendo a leitura de ambos.

jazzLendo “Jazz” entendi de onde vem este estilo musical, da profunda alma sofrida negra, das vozes de timbre perfeito, capazes de nos penetrarem na alma, no sangue, cavando seu buraco na nossa emoção. Foi um convite a escutar novamente, agora ouvindo e sentindo a música. Vem da beleza das histórias vividas, traduzindo-as em melodia, comunicando com o mundo o seu sofrimento histórico.

“Amada” (1987) foi baseado na história real de uma escrava negra chamada Margareth Garner, pouco antes da guerra civil americana em 1855, que cometeu infanticídio. Por este livro a autora ganhou, em 1988, o Prêmio Pulitzer. A personagem principal do livro, chamada Seth, é uma antiga escrava que é perseguida pelo fantasma de sua filha assassinada por ela. A aflição de ver a filha ter o mesmo destino do que ela, nas rédeas da escravidão, levou-a a tomar esta trágica decisão. A história do livro também pode ser vista no filme “A Bem-Amada”, entretanto ainda não tive a oportunidade de assisti-lo, mas fica a dica para os curiosos.

4040476_f520Este livro foi capaz de me seduzir pela forma com que a escritora constrói a história, colocando-nos mais próximos da realidade da escravidão. Senti nojo e repulsa pela forma com que a simples cor da pele foi capaz de mostrar o nosso lado mais primitivo e perverso e até onde o poder instituído é legitimado em relações de dominação. Durante a leitura, fui obrigada a refletir sobre como nós tratamos as pessoas, os animais, e até as plantas, só por termos a petulância ridícula de acreditarmos que somos melhores que alguém diante de algumas características físicas e monetárias puramente históricas. E essa arrogância pariu a escravidão. Esta mazela da sociedade foi capaz de roubar até a sanidade e o gosto pela vida, destruindo o que há de melhor nela, que é a pura liberdade de amar.

Depois dessas leituras fascinantes e envolventes, me preparo para ler o “O Olho Mais Azul”, que conta a história de uma garota negra que acreditava que toda a dificuldade e hostilidade que encontrava no mundo poderiam ser solucionadas pelo simples fato de se ter olhos azuis. Esta é uma temática que permeia toda a escrita de Morrison, a vida da mulher negra e a falta de direitos e valorização com que ela convive ao longo do tempo (até os dias de hoje). A cultura e os valores de uma sociedade racista e machista podem fazer com que qualquer pessoa assuma para si os mesmos preconceitos do qual é vítima. No meu dia a dia, vejo muitas mulheres assumindo essa postura contra elas mesmas, no que se refere ao machismo. No livro em questão, isso é tratado sob a ótica da cor da pele, demonstrando que o próprio negro pode repudiar as suas características, associando-as à feiura e à sujeira e, ao contrário, a pele branca e os olhos azuis à beleza.

olhoDurante o meu intercâmbio na Universidade de Leeds na Inglaterra, em uma disciplina de Psicologia Social, estudei uma pesquisa que me marcou muito. Em um laboratório, crianças de diferentes etnias se deparavam com duas bonecas, uma negra e uma branca. Perguntas sobre adjetivos relacionados às boneca eram feitas. Por exemplo, as crianças deveriam responder qual boneca era mais bonita e qual era suja e má.

As respostas são impressionantes, pois, todas aquelas relacionadas a adjetivos socialmente considerados bons foram atreladas às bonecas brancas, e aquelas relacionas a adjetivos ruins foram direcionadas às bonecas negras. E as pessoas têm a coragem de me dizer que o nosso mundo não é racista. Talvez a infância, na sua pureza, seja a melhor forma de denunciar esse lastro de tristeza da nossa história.

Vejam o vídeo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=XyilexcWbSE

Li também em um blog que aprecio muito (http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/11/aceitar-nosso-cabelo-um-ato-politico.html), um texto sobre o fato de que assumir o nosso cabelo, da forma como ele é, liso, anelado, crespo, loiro, castanho é um ato político. Principalmente aquele cabelo considerado “ruim” (e maldoso?), que é constantemente desafiado a ser alisado, pintado, relaxado, e todos os outros nomes que existem para impor que o cabelo liso é melhor. Leia-se, impor que ser branco é melhor.

cabeloIngênuo é quem acha que a beleza não é uma construção social definida e comercializada sob os parâmetros do dominador. Se não do que viveria o mercado da beleza? Assumir que a opinião sobre os traços negros como inferiores é uma construção deve ser um ato político e social. Não há contestação para estes argumentos. Talvez isso soe hippie, mas o primeiro passo é aprender a amar o próximo. Por mais cristã (?) que seja a nossa sociedade, eu vejo esse valor mais como um discurso do que como uma prática.

Lembro-me agora de uma cena de um lindíssimo filme de Spielberg chamado “A Cor Púrpura”, em que uma negra é ofendida pelo seu marido. Quando ela resolve abandoná-lo, após um histórico de violência doméstica e diversas humilhações psicológicas, ele se revolta falando que ela iria arrepender-se, já que não era ninguém para sociedade, por ser mulher, negra, pobre e feia. Esse “ninguém” representa um dos ápices do nosso preconceito e da falta de diretos com que muitas mulheres sofrem, sobretudo a mulher negra.

ÍndiceA desigualdade de direitos das mulheres foi o impulsionador para a luta feminista, em uma sociedade machista e patriarca, e é fato que essa desigualdade atingiu de uma forma muito mais intensa as mulheres negras, já que o racismo e a história já as colocavam em desvantagem desde o princípio. Não há como se falar de machismo, sem falar de gênero e raça, e Toni e sua literatura são formas lindas de tratar sobre essas temáticas.

Não seria uma breve coincidência, ou o mais evidente resquício da escravidão e do machismo, o fato desta escritora ser a única negra a ganhar um Nobel? Toni Morrison representa para mim a coragem e militância de transformar em belas palavras de denúncia os horrores do racismo, tratando de temas como a escravidão, o mito da beleza, pobreza, perda da inocência, loucura e preconceito.

corpc3barpura_filmeA forma sincera e honesta com que Morrison escreve, tornam a sua leitura uma busca pelo nosso próprio interior, as nossas próprias formas de agir e interpretar o mundo. Para além do livro, não canso de perceber que a literatura é uma paixão pela qual sou fiel o máximo possível. Termino desejando e lutando para que exista liberdade para todos os cabelos, para todas as pessoas de todas as cores, de todos os sexos, liberdade para amar, sobretudo a si mesmo.

“…Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta

que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”

Cecília Meireles

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Elizabeth Bishop, Lya Luft, Para Sempre Alice, Uma Arte

A Arte de Perder

Ontem à noite me dei ao luxo de assistir a um excelente filme na sala especial do cinema do Shopping Ponteio. Cinqüenta lugares, com cadeiras muito confortáveis, apoio para os pés e um cardápio especial para os clientes. Devo confessar que fiquei mal acostumada, pois foi realmente muito agradável assistir ao filme “Para Sempre Alice”  neste local privilegiado (e caro).

Deixando a sala de lado, devo reconhecer que o filme assistido e indicado por uma prima querida que escreveu uma excelente crítica (http://altamenteacido.com.br/review/critica-para-sempre-alice/), valeu muitíssimo a pena. Julianne Moore está realmente espetacular na sua atuação, no papel de uma professora de linguística bem sucedida, que é diagnosticada com um caso precoce de Alzheimer. A sua atuação lhe rendeu um Oscar muito merecido de melhor atriz. É um filme muito triste, pois retrata uma doença que realmente nos faz nos perder de nós mesmos, por mais belas que sejam as histórias que tenhamos construído na vida. Por outro lado, a película capta com tamanha sutileza a perda em todos os âmbitos que o Alzheimer impõe, envolvendo o espectador ( pelo menos essa que vos fala) durante todo o longa.

Este filme me lembrou de um texto de Lya Luft que li há muito tempo na Veja (sim, eu já li Veja), em que esta escritora escreveu sobre sua mãe, que acabara de falecer em decorrência do Alzheimer. A força das palavras é incrível, pois nunca me esqueci da dor que a autora tão bem descrevera, relacionada à mais simples e bela das saudades, mas que representa toda a grandiosidade devastadora que a ausência da pessoa que nos gerou deixa, a de nunca mais dizer a palavra “mãe”. Lya tão bem escreve neste texto a sua sensação:

“Pois diante dessa figura estranha, poderosa, arquetípica, primordial, da mulher que nos pariu, todos estacamos à espera de reconhecimento, abrigo e colo”.

Nunca desconhecimento.

A doença em questão nos tira, não só as belas senhoras que com um simples olhar conseguem nos fazer virar do avesso, mas também o reconhecimento e a identidade de sabermos quem somos ao nos olharmos de frente para a janela da nossa história. Transcrevo o último parágrafo do texto, que penso concluir o que tão brevemente estou tentando traduzir:

“A esta altura da vida, sempre em crescimento, com as lutas pessoais e humanas, as contemplações, glórias e derrotas, fênix da própria existência como todos somos, me punge a súbita consciência de que nunca mais, nem diante de uma velhinha que já não me reconhece, poderei dizer: Mãe.”

Se tiverem um tempo, não deixem de ler esse lindo texto (http://veja.abril.com.br/120105/ponto_de_vista.html).

Hoje, além de divagar sobre essa doença maldita, que parece existir para nos lembrar de como as memórias são preciosas, eu vim falar de outra pessoa a que este filme me remeteu. Em uma linda cena em que Alice (Julianne Moore), a personagem principal, faz um discurso sobre a sua experiência com a doença, ela cita a poetisa americana do século XX Elizabeth Bishop, que escreveu uma lindíssima poesia sobre a arte da perda. Há pouco tempo, antes de assistir a este filme, cruzei os caminhos de Bishop, com esta mesma poesia impressa em minhas mãos.

Esta escritora norte americana nasceu em Massachusetts, em 1911 e faleceu em 1979. Bishop viveu cerca de 20 anos no Brasil, onde produziu grande parte de sua obra. Durante a sua estada, teve um relacionamento amoroso com a arquiteta carioca Maria Carlota de Macedo Soares (1910-67), entre 1951 e 1967. Lota, como esta era chamada, foi quem projetou o Parque do Flamengo, localizado no Rio de Janeiro.  O relacionamento de aproximadamente 15 anos, teve um fim abalado pela instabilidade emocional de Elizabeth e a obsessão de Carlota pelo seu projeto arquitetônico, que terminou com o suicídio de Lota.

A história pode ser lida no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, ou assistido no filme “Flores Raras” de Bruno Barreto. Gostei do filme (não li o livro), embora não o considere nenhuma obra prima. Foi interessante conhecer esse pedaço de história, tão importante para a poesia e a arquitetura brasileira.

Elizabeth Bishop teve sua vida marcada por perdas, como de seu pai (William Thomas Bishop)  quando ainda era um bebê, por insuficiência renal e de sua mãe (Gertrude), que foi internada em uma clínica psiquiátrica quando ainda era criança, quem nunca mais voltou a ver depois disso.  Viveu com diversos familiares, mas pareceu nunca superar o seu passado. Em determinado momento de sua vida, compartilhou com seu amigo poeta Robert Lowell que se sentia a pessoa mais solitária do mundo. Formou-se em literatura inglesa na Vassar College em Poughkeepsie. Nunca teve necessidade de trabalhar diante da bela herança deixada por seu pai.

Diante de toda essa beleza artística que humildemente aqui apresentei, fico me perguntando sobre o lugar da perda, da solidão e do sofrimento neste mundo, já que, quando no corpo e nas mãos certas, nos oferece uma arte maravilhosa em troca. Essa vida é mesmo muito contraditória, pois não é a feiura da tristeza a mãe de todos esses filmes e escritos que aos meus olhos são tão belos?

Pois não seria a vida a grande arte da perda, afinal? A arte da despedida: da mamadeira a um irmão, da faculdade a um emprego, dos amigos que mais amamos à qualquer experiência por mais breve e significativa que seja deixada para trás?

Termino estes relatos com a linda poesia de Bishop:

“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala
subseqüente
da viagem não feita.
Nada disso
é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem
quero
lembrar a perda de três casas
excelentes.
A arte de perder não é nenhum
mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um
império
que era meu, dois rios, e mais um
continente.
Tenho saudade deles. Mas não é
nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso
etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é
evidente
que a arte de perder não chega a ser
mistério
por muito que pareça (Escreve!)
muito sério”

(Uma Arte – Tradução Paulo Henriques Britto)

Obs: Existe outra bela tradução desta poesia de Horácio Costa (vale a pena conferir!).

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La Maravillosa Fridita Kahlo

Acredito que muitas pessoas conheçam a história de Frida Kahlo (1907 a 1954), pintora mexicana do século XX que se destacou pelos seus quadros expressivos e coloridos, sobretudo depois de sua morte. Foi casada com Diego Rivera, um dos mais importantes muralistas do México, que ficou conhecido em vida por sua arte revolucionária.

Este ano tive o prazer de conhecer a casa onde Frida morou, situada na Cidade do México em um bairro chamado “Coioacán”. Hoje, a casa onde cresceu e depois morou com seu amado Diego, é um museu dedicado a mostrar para o mundo a bela história desta ilustre pintora, onde diversos de seus quadros estão expostos e a decoração de vários cômodos está preservada. Foi como caminhar pela vida da Frida, tamanha era sua paixão pela sua família e pela sua casa de paredes de cor azul anil.

Parte da casa pode ser vista no filme “Frida”, o qual vale a pena ser assistido. A atriz que interpreta a pintora é Salma Hayek, uma mexicana que dá um verdadeiro show de atuação. No ano de 2002 este filme ganhou o Oscar por melhor maquiagem e melhor trilha sonora.

De volta ao maravilhoso México, na colorida casa de Frida é possível observar a cozinha da casa, o seu ateliê, onde está a cadeira de rodas que a acompanhou em parte de sua vida repleta de cirurgias, e a cama que contém um espelho na sua parte de cima, para que a pintora pudesse se observar durante os seus longos períodos deitada pós-cirurgias. Ver a cama de Frida e o canto onde ela e Diego trabalharam foi uma sensação indescritível acompanhada de quase um silêncio que eternizou por segundos aquela experiência.

No primeiro andar se encontra o quarto em que ficou hospedado Trotski e sua mulher Natália, em sua longa trajetória no exílio após rompimento com Stalin. Os dois foram abrigados pelo casal Rivera Kahlo depois da expulsão de Leon da Noruega. É um ambiente simples, mas digno de história. Frida viveu um breve romance com Trotski, que é retratado em seu filme.

Depois que Frida morreu, Diego ocupou este quarto. Nele pode ser encontrado um suporte para pendurar roupas na parede lateral do cômodo, onde se estende o macacão jeans que o pintor usava para trabalhar. Depois que Kahlo faleceu, Diego se casou mais uma vez antes de morrer, sendo esta a sua quarta esposa. O casamento com Frida foi bastante conturbado, mas definitivamente repleto de paixão.

Nesse contexto indico a leitura de dois livros imperdíveis: um sobre Trotski, cuja vida peculiar cruza os caminhos de Frida e Diego que é muito bem retratada e romanceada no livro “O Homem que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura (escritor cubano contemporâneo). Simplesmente imperdível, um livro para tardes tranquilas ou boas viagens, em que a alma possa viajar pelos caminhos de Cuba, o frio da Rússia e a alegria espanhola.

Indico ainda o livro “Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo”, que reúne as cartas escritas por esta pintora tão admirada por mim, destinadas aos seus amigos, amores e familiares. São sempre cheias de emoção e realidade, extensões de sua intensidade e sofrimento, na minha opinião. Parecem-me quase um autorretrato escrito por ela mesma, por meio de suas cartas.

Os quadros de Frida são assim também, cheios de realidade surreal e projeções da dor sofrida durante a sua vida, expressas por meio de símbolos e imagens da própria pintora. Essa influência de se auto pintar, muito encontrada na sua maravilhosa obra, veio de seu pai, fotógrafo e pintor que cultivava o mesmo hábito. Guillermo Kahlo deixou um grande acervo de fotografias de si mesmo e de sua família. Muitas fotos de Frida podem ser encontradas hoje diante dessa tradição da família.

Frida desde jovem conviveu com graves problemas de saúde. Na sua infância teve poliomielite e, mais tarde, sofreu um acidente de carro em 1925, que destruiu a sua pélvis e fragmentou a sua coluna lombar. Essas tragédias mudaram para sempre o seu corpo, e por isso a pintora foi submetida a diversas cirurgias ao longo da vida. Mesmo assim, Frida pareceu sempre enfrentar essas mazelas de sua vida com coragem, canalizando todo o seu sofrimento por meio de tintas coloridas em uma tela. Sua unicidade e força podem ser observadas nesta frase, que escreveu depois de uma de suas cirurgias:

“Cuando mi padre me sacó fotografias después de mi acidente, sabía que mis ojos eram un campo de batalla del sufrimiento. A partir de ahí, comencé a mirar de frente a la lente, sin titubear, sin sonreir, determinada de mostrar que era una luchadora tenaz hasta el final.”

Na parede de uma das salas de sua casa, está escrita uma frase linda de Diego dedicada a Frida: ” A la niña Fridita Kahlo, la maravillosa. El 7 de Julio de 1956, a los dos años que duerme en cenizas, viva en mi corazon”. Há quem o considere um canalha diante de todos os seus casos extraconjugais, mas foi um exímio artista de esquerda que lutou pela revolução fielmente.

Gostaria de ter visto os seus murais no Palácio Nacional, onde fica instalado o poder executivo do México, localizado no Zólaco, que fica no belíssimo e imperdível centro histórico da Cidade do México. O prédio foi erguido estrategicamente sobre um local onde já se situaram palácios dos governantes do Império Asteca. O Palácio estava fechado, porque havia sido pichado por manifestantes revoltados contra o triste desaparecimento de 43 jovens mexicanos que lutavam por reformas na educação no ano passado. Um capítulo muito triste na história do México, mas que não foi esquecido pelos mexicanos que manifestavam por todo o país enquanto estive por lá. “Faltam 43”, era uma frase escrita por toda a cidade. Deixo por ora essa história lamentável, mas não sem compartilhar a minha revolta e a minha comoção em constatar o mundo onde moro.

Voltando ao Diego Rivera, pude ver alguns de seus murais no seu museu chamado Anahauacalli, espaço de homenagem à história do povo mexicano. No mesmo, podem ser encontradas diversas peças antigas, preciosidades que ilustram a história do México. Na visita a este espaço, a guia nos contou que os parques arqueológicos ainda não existiam na época no pintor, e que muitas das peças antigas dos povos que ocupavam estes locais foram roubadas por pessoas diversas. Diego também se apossou de algumas destas com a intenção de colocá-las no seu museu. O objetivo deste prédio era que toda a população, independente da classe social, pudesse se apropriar da história do México. Diego morreu antes de terminar o museu, que depois foi finalizado e hoje é aberto ao público em sua homenagem.

Rivera era, verdadeiramente, a maior paixão de Frida. O último texto do livro “Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo” é um retrato escrito de Diego de 1949, para um catálogo de uma exposição feita em homenagem ao pintor (Instituto Nacional de Belas artes da Cidade do México). Segue breve trecho:

“ Alguns de vocês provavelmente esperam que meu retrato de Diego seja muito pessoal, “feminino”, anedótico, engraçado, cheio de queixas e até de uma pitada de mexericos (…). Talvez vocês esperem que eu lamente “o quanto se sofre” vivendo com um homem como o Diego. Mas não creio que as margens sofram por deixar o rio correr, ou a Terra por causa das chuvas…”

É importante mencionar que o Museu Dolores Olmero Patino e o Museu de Arte Moderna apresentam um maravilhoso acervo do casal Rivera Kahlo, onde pude ver o quadro das duas Fridas, em que não tenho palavras para descrevê-lo. Além disso, obras de Siqueiros e de Orozco, importantes artistas mexicanos, também estão expostos nestes museus.

Eu poderia falar para sempre dessas pessoas, dessa cidade magnífica, que é uma das que mais abriga museus no mundo. Mas por ora deixo como está, acho que já falei demais.
Finalizo, refletindo sobre tudo que compõe aquele pequeno paraíso da Casa Azul, que me pareceu muito afetivo e mágico. É um privilégio nessa vida poder conhecer aquilo que amamos e mais sobre alguém que tanto admiramos. Amo as cores que envolvem a vida de Frida e a forma como ela viveu sua vida. A arte serve para nos inspirar e aquelas pessoas corajosas o suficiente para viverem dela são motivos pelo qual amo ler e estudar. Busco absorver, de certa forma, toda essa beleza que enxergo na vida. Porque como disse Ferreira Goulart, “A arte existe porque a vida não basta”.

PS: Na Cidade do México indico ainda: todo o bairro de Chapultepec, onde encontramos o Museu de Antropologia (onde podemos encontrar o calendário Asteca) e o castelo de Chapultepec (onde morou Maximiliano, Carlota, Porfírio Dias – morto na revolução que durou 11 anos), além de outros museus.
As ruínas de Teotihuacan (pirâmides do sol e da lua) , a igreja de Guadalupe, todo o Zócalo (centro histórico), Cholula e Puebla. Não deixem de provar o cactos mexicano e de irem um tradicional restaurante de comidas típicas (cuidado com o chilli).

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Livros

ENTRE AMIGOS

Acabei de ler o meu terceiro livro de Amós Oz, escritor e ativista israelense contemporâneo, que não deixa de me surpreender a cada leitura. Foi por acaso que conheci os seus escritos, que me foram indicados por uma tia quem compartilha do meu afeto pelos livros. Nascido em Jerusalém em 1939,o escritor apresenta uma literatura extensa e diversificada, que merece ser lida.
Até agora já tive o prazer de ler três de seus livros, dos quais indico todos: Entre Amigos, O Mesmo Mar e aquele que considero a sua obra prima, A Caixa Preta.
Hoje decidi escrever sobre o último livro do autor lido por mim (acabei há cinco minutos), chamado “Entre Amigos”, já que ainda permanece dentro de mim aquela sensação gostosa e nostálgica que eu tenho após uma boa leitura. É um sentimento quase indescritível, mas muito significativo. Acredito que seja uma forma de alegria meio triste, surpreendida e apaixonada.
A história do livro se passa em um Kibutz e retrata em pequenos relatos, histórias profundas da vida de seus moradores. Casais que se separam, familiares doentes, crianças excluídas na escola, ex-soldados da guerra, conflitos dos mais humanos possíveis, tudo isso envolto e costurado em uma comunidade que constantemente questiona seus princípios, algumas vezes idolatrando o passado, como muito podemos ver no nosso dia a dia.
Até então eu pouco sabia sobre essas sociedades chamadas Kibutz, que são uma espécie de fazendas comunitárias israelenses, em que o coletivismo prevalece, e onde todo o trabalho necessário à subsistência é dividido entre os seus membros sem que haja salário. Foi um movimento que teve início na virada do século XX, quando grupos de pioneiros jovens do leste europeu decidiram combinar o seu comprometimento com a igualdade, o respeito à natureza e o trabalho agrícola, com a crença no sionismo. A marca histórica do Kibutz é o compartilhamento entre seus membros. Hoje, aproximadamente 1,5% da população de Israel vive sob esse estio de vida, que contribui, de forma significativa, para a agricultura do país e, nos seus primeiros anos, para a defesa de suas fronteiras. Em uma visita a Israel, é possível conhecer estas comunidades.
Achei interessante saber que o autor morou em um Kibutz quando jovem, talvez de lá ele tenha retirado um parte de sua inspiração, talvez não. As histórias do livro são tão cotidianas que, mesmo em sociedades coletivistas, mostram que continuamos muito parecidos, independentemente dos vastos oceanos que nos separam. A cultura cumpre seu papel de lapidar a nossa casca, mas as nossas contradições e questões parecem apenas tomar outra vestimenta, permanecendo a sua essência. A humanidade se repete, como bem disse hoje minha diretora durante o almoço.
 A princípio achei a forma de escrever deste livro (li a tradução da Cia das Letras) demasiada simples, mas os pequenos contos vão crescendo e se desenvolvendo de forma que se encontram e fazem sentido, gerando sensações genuínas sobre os membros do Kibutz. As histórias, muitas vezes tristes, me remeteram às muitas situações vividas e presenciadas por mim e, na minha opinião, estabelecem uma conexão com o ambiente em que acontecem, sendo o cenário sempre descrito de uma forma que se entrelaça com a história lida.
O livro é cheio de símbolos poderosos e pude me identificar com vários deles, como no caso de um jovem que vai visitar seu pai doente e assiste a um cão ser atropelado. Para os que me conhecem, sabem que essa é talvez a pior cena a ser imaginada, apesar de descrever muito do personagem, também um pouco abandonado, como um cão no meio da estrada.
É interessante assumir que os livros nunca deixam de me surpreender, nunca. Por meio deles, foi gostoso passear por um Kibutz brevemente e ver a como a união e a relação das pessoas pode ser formar por lá. É quase como uma cidade do interior, onde tudo se comenta e há muita malícia, mas também existe um sentimento de união e compaixão que une a todos, como em algumas famílias.
Minha meta agora é ler um livro chamado “Orientalismo”, de Edward Said, um palestino que discursa sobre a invenção do oriente pelo ocidente. Foram indicações do curso de literatura que ando fazendo uma vez por mês. Penso que é muito importante lermos sobre pontos de vista distintos. Voltando ao “Entre Amigos”, a questão entre os palestinos e israelenses é freqüente no mesmo, sendo que muitos de seus personagens são ex-soldados(as), ou têm algum membro da família que teve essa triste experiência (na minha humilde opinião que odeia guerras).
O livro termina com a minha história preferida, que me gerou um ternura nostálgica, assim como em Osnat, uma das personagens. Termina com a morte, imagino que propositadamente. Não se preocupem, eu não estraguei o final, não existe realmente um final.
Bom, de qualquer forma, cá entre amigos, fica a dica do autor. Boa noite.
PS: Segue uma frase de Amós Oz, traduzida para o espanhol, que não tive a ousadia de traduzir para o português, embora seja muito fácil de compreendê-la:
“(…) Cada uno de nosotros es una península, con una mitad unida a tierra firme y la otra mirando al océano. Una mitad conectada a la família, a los amigos, a la cultura, a la tradicíon, al país, a la nacíon, al sexo y al linguaje y a muchos otros vínculos. Y la otra mitad deseando que la dejen sola contemplando el océano”.
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